Contrametamorfose, um tributo a Franz Kafka

Postado em Prosas em Junho 9, 2009 por lucekau

por: Lucca Bacal

           Logo que acordei percebi algo estranho. Eu havia sonhado, algo que dificilmente acontecia. Havia sonhado, mesmo que estranhos sonhos, eu havia sonhado. Sonhava que havia esperança, que meus parentes me perdoavam pelo sofrimento que os havia causado. Sonhei que voltava a ser. Assim, ao estender-me da cama para fora notei que era humano. Notei que me movia livremente, que tinha exatamente quatro membros (dois braços e duas pernas).

            Mas como, depois de tanto tempo, voltara a ser uma pessoa? Mas o que importava se deste modo não teria mais de ficar arrastando-me entre móveis, fugindo de meus familiares para não forçá-los a sentir a dor de minha metamorfose?

            Embora de que adiantasse ser humano, se a mesma humanidade me obrigara a uma vida de barata? Eu havia sido uma vítima da sociedade, eu havia sido pisoteado e obrigado a ter um período de angustias e cultivador de mágoas e ódios. Eu não era mais um inseto. Não era mais uma barata.

            O choque me obrigou a voltar à minha cama, as recém descobertas pernas tremiam, o que eu deveria fazer neste momento. Olhei a minha volta e me deparei com as condições nas quais eu era obrigado por minha própria família a viver. Não havia móveis além da cama, já que foram todos retirados para permitir maior espaço para me rastejar… e quando eu o fazia deixava repugnantes manchas (agora secas) e trilhas pelo local. Voltou-me a náusea, quando barata eu havia esquecido da mesma.

            Agora o repugnante para mim era o natural um dia atrás, não consegui acreditar que tal mudança pudesse ocorrer. Mas eu não mudei. Mudei? Apenas meu exterior havia mudado, eu continuava igual. Será mesmo? Então por que havia náusea de meu próprio produto enquanto inseto? Por que a vontade de sair daquele quarto que era, anteriormente, todo ambiente que eu necessitava?

            Ao levantar-me, caminhei até a porta e virei a maçaneta. Trancada. Tentei novamente, o mesmo resultado. Com minha recente mão iniciei um procedimento de tentar chamar atenção de meus parentes batendo na porta. Depois de alguns minutos ouvi um choro por detrás da madeira já se tornando podre pela umidade de meu rastro pré-metamorfose. Minha mãe.

            Mas por que a lamúria? Eu voltara a ser seu filho. Voltara a me sentir humano, voltara a ser. Outro choro, um gemido mais grave, meu pai. Logo depois, minha irmã. Todos se lamuriando, perguntando-se por que motivo eu os perturbava, eu era apenas um fardo.

Fora por causa daquela humanidade que eu me tornara um inseto, mas voltara a eles de braços abertos. Eles me repeliram.

            Eu não era um humano, não era uma barata. Eu era um rato. Uma suja penugem branca percorria minha pele, meu nariz era um focinho vermelho. Uma cauda rosada estendia-se por detrás de mim. E assim, eu me encolhi e pus-me a roer a porta.

Fim

Traços da Vida

Postado em Poesias em Maio 14, 2009 por lucekau

POR: Maurício Tavano

GÊNERO: indefinido

A principio rabiscos riscados rapidamente

Carregados da alegria e da falta de sentido da infância

Personagens engraçados gritando avidamente

Besteiras quase sem importância

 

Como a vida era piada

Criar e imaginar também

Desenhar era alegria a cada riscada

no papel branco e além

 

Hoje desenho é muro

Barrando a luz que dos outros se dirige a mim

sem nenhum pequeno furo

e eu fico sentado assim

 

Hábito para alguns infantil

Ideia generalizada e senil

Que faz poucos beberem de meu cantil

 

traçando o meu interior

Fazendo vibrar meu coração

Com traços cuidadosos

Saídos da imaginação

 

riscando a vida riscando poesia

no meu canto confortável

contando ao papel minha ânsia 

numa conversa impenetrável

 

mas minhas ideias alguém há de ouvir

decifrar as palavras, tentar me entender

se aproximar, mesmo que indiscreta, vir

e de meu néctar beber.

Ausência

Postado em Prosas em Maio 14, 2009 por lucekau

POR: Lucca Bacal

GÊNERO: Terror

Aconteceu quando ele tinha cinco anos, foi estranho… foi inacreditável, mas aconteceu. Simplesmente, era de noite e os pais dele haviam saído para jantar fora. A empregada jovem aproveitara para encontrar o namorado às escondidas.

            O garotinho que respondia pelo nome de Vitor ficara sozinho em casa. Ele pensou em ligar para os pais no restaurante e explicar que a babá havia deixado ele lá, sem ninguém para cuidar dele, à noite.

Mas não, ele gostava dela, pensava que fora apenas um mal entendido. Em sua mente de criança ele achava que ela não ficaria muito tempo fora. Que ela voltaria para ficar junto dele. Mas não era assim, ela havia fugido com o namorado na noite, quando os patrões não estavam em casa. Deixando sozinha uma inocente criancinha de cinco anos.

            Ele se acomodou na sala de estar, sentado no sofá, lendo seu pequeno livro sobre coisas que apenas interessariam a um garoto de cinco anos. Por mais que as letras fossem grandes e tivessem enormes ilustrações coloridas, ele demorava entre dez a quinze minutos para ler uma página.

            Cansou de ler, marcou a página, fechou o livro e olhou para capa. Sorriu e colocou-o na mesinha de centro feita de vidro.

            Pegou o controle remoto da tevê e a ligou. Deitou-se no sofá e começou a rir dos desenhos que passavam. Era divertido para ele, até que o fato escabroso aconteceu. E este é o motivo para eu estar contando para vocês esta pequena história. O motivo que fez Vitor enlouquecer e virar apenas um fardo morto na família Williams.

            A televisão exibia imagens coloridas e divertidas, os olhos do pequeno menino estavam arregalados, não piscavam. Ele mantinha um sorriso estampado em seu rostinho corado, que mais tarde ficaria tão branco e sem vida quanto um pedaço de papel. Mas, olhe pelo lado bom, ele ainda mantém seus olhos arregalados na situação atual, pós-trauma.

            Sua concentração era tão grande que, quando ele ouviu o primeiro estrondo vindo do quarto ao lado, ele caiu do sofá, batendo com a cabeça na mesinha de centro e fazendo com que o pequeno livrinho voasse por cima de sua cabeça e fosse parar atrás do sofá, deixando o marcador no caminho, que foi caindo como uma folha seca em cima do garotinho.

            Vitor desligou a televisão e esperou para ver se ouvia mais algum barulho. Outro estrondo ocorreu, seguido de pequenos ruídos que pareciam algo riscando o vidro, que fizeram o garoto lembrar de quando viu um urubu no zoológico, e ele começou a arranhar um toco de árvore, produzindo um som semelhante. Este pensamento provocou um horrível frio na espinha.

            Sua cabeça começou a latejar. Vitor colocou a mão na testa, onde havia levado a pancada, e sentiu algo liquido, pegajoso e quente. Assustado, ele colocou a mão no seu campo de visão. E para seu espanto, um liquido rubro escorria entre seus dedos.

            Vitor sabia o que era aquilo, era sangue. Era algo que ele tinha nojo e medo.

Seus olhos lacrimejavam e sua boca se abria, pronta para um escândalo. Isso até ocorrer outro estrondo, só que desta vez, seguido por uma fina voz, que poderia muito bem ser o vento: “Vitorrrrrr”, ela dizia com seu “erre” puxado.

            O inocente garoto estremeceu e correu para o telefone, apavorado. Ao tirar o aparelho do gancho para ligar desesperadamente para os pais e contar sobre a fuga da babá, os estrondos e seu machucado, ele não ouviu o som do telefone dando linha, ele não ouviu nada. Ele ficou alguns segundos com o aparelho no ouvido, até que ele ouviu novamente alguém o chamar. Aquela horrível voz de vento. Aquela macabra sinfonia rouca e com o “erre” esticado. Só que desta vez, por mais horrível que fosse, a voz vinha do telefone:

            -Vitorrrrrr, garoto, venha até mimmmmm.- A voz completou – Vou cuidarrrr de vocêêêê.

            Com extremo pavor e desespero, com o coração explodindo e quase saindo pela boca, o menino gritou com sua vózinha de cinco anos e atirou o telefone com uma força anormal para garotos de sua idade.

            Ele correu para o ponto na sala mais longe do quarto, de onde a voz fantasmagórica não parava de se repetir, chamando por seu nome.

Vitor se atirou para o corredor que dava para seu quarto, tropeçando nas escorregadias meias de veludo estampadas com personagens de desenhos animados, no chão encerado.

            Em total desespero, o garotinho que hoje tinha saído para jogar bola com os amigos sentiu algo agarrando seu calcanhar esquerdo e que o fez tropeçar no corredor com paredes de gesso que pareciam cada vez mais apertadas e estreitas.

            Vitor tentou se segurar, mas apenas cortou sua mão com a moldura de vidro de um Rembrandt falso que seu pai havia ganhado em um sorteio do último cruzeiro que fizeram em família, cujo destino era o Caribe. O quadro caiu da parede e sua moldura de vidro se esmigalhou no chão, arranhando o corpo dele em vários lugares dos braços e pernas.

            Virou-se para trás para ver se estava sendo seguido, não estava. O menino se levantou chorando e correu em direção ao quarto que lhe pertencia. Sim, lá estava a porta de seu quarto, ele iria entrar e pular na cama, infestada de bonecos de pelúcia, lençóis e travesseiros com figuras de seus desenhos preferidos.

            Mas, algo realmente estranho ocorreu, com uma grande rapidez, Vitor puxou a maçaneta e a virou. A porta se abriu em uma fresta, o garotinho tentou empurrar o resto, mas ela estava emperrada. Ele forçou com o ombro, nada. Então, com muita burrice e horror, Vitor se jogou de frente contra a entrada semi-aberta do quarto. Batendo e quebrando o nariz com um estalo. Sangue escorreu das narinas para a boca.

            A porta se escancarou, jogando Vitor para o chão, que caiu em cima do próprio braço, quebrando-o. Seus olhos estavam serrados pela dor…muita dor.

O garoto foi se arrastando para frente, o rosto no chão. Mas quando abriu seus pequeninos olhos ele viu que não estava no seu quarto.

            O chão era diferente, era de um mármore branco e encerado, muito brilhante. Aquele era o chão da sala. Quando olhou para frente, viu que estava cara a cara com o quarto de onde vinha o chamado da voz, desta vez com um tom zombeteiro. A luz estava apagada, a escuridão prevalecia, mas mesmo assim, Vitor conseguia enxergar um vulto que se movia rapidamente dentro do quarto, subindo nas paredes e teto.

            Com uma extrema coragem que deveria ser lembrada para todo o resto da eternidade no mundo inteiro, Vitor se levantou com raiva e dor e começou a se aproximar do quarto medonho. O vulto, percebendo isso, voltou para o chão e começou a caminhar para a porta, em sua direção.

            Quando os dois estavam frente a frente e Vitor sentiu a quente respiração da estranha silhueta humanóide em seu rosto, ele entendeu que não era uma questão de coragem, que ele iria morrer. Com pavor, ele gritou, fazendo com que o vulto soltasse um urro animalesco e horroroso.

            O garoto tentou correr, mas seus pés o haviam abandonado, ele ia cair no chão e aquilo ia pegá-lo. Vitor se apoiou no parapeito da porta, onde sua mão roçou o interruptor e acendeu a luz.

            Com a mesma velocidade que a luz predominou, o estranho ser sumiu, junto com as vozes e estrondos. Vitor derramou algumas lágrimas, sua boca se abria, seu rosto havia se contorcido em uma careta de dor. Então, com um súbito alívio, Vitor caiu no chão, desmaiado.

Quando os pais finalmente chegaram, tudo estava quebrado e o garoto em estado moribundo. Eles correram para o hospital, onde o salvaram do toque gélido da morte. Mas depois, Vitor teve de ser internado em uma clínica psiquiátrica. Ele não falava, não se movia e não comia sem ajuda.

            A babá foi presa por tentativa de homicídio. Por algum estranho motivo ela foi encontrada fugindo de algo, aterrorizada, o sangue do garoto estava em suas mãos, corpo e roupas. Ela segurava com força uma lixa de unhas de metal ensangüentada.

            O garoto nunca melhorou o estado mental, os pais nunca superaram, a babá se enforcou na cadeia e a moldura do quadro falso do Rembrandt nunca foi trocada. 

EM CIMA DO MURO

Postado em Poesias em Maio 12, 2009 por lucekau

 

POR :Kaue Piza

GÊNERO: indefinido

“Garoto de olhar triste, sempre a imaginar

Andando de um lado para o outro da mureta

Pensando no que iria criar…..uma frase…….uma poesia

Para ele não importava,

Seria algo que retratasse sua ingênua fantasia

E era  naquela alta mureta  ele se mantia em pé

As vezes por um breve olhar, se permitia  de lá de cima cair

Mas nunca desistindo de novamente subir

Quando o jovem deitava a lua se deitava também

E os dois  em perfeita harmonia bincavam com a vida como mais ninguém

Chegou a hora em que essa brincadeira passou a ser coisa séria

E com o tempo  viu que o muro não era o seu lugar

E para um dos dois lados ele iria  ter que pular”

 

Contato

Postado em Contato em Maio 12, 2009 por lucekau

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Postado em Poesias em Maio 12, 2009 por lucekau

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Postado em Como Publicar Textos Neste Blog em Maio 12, 2009 por lucekau

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